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João Ferro Martins
Algo está podre, 2009
Esta série de desenhos marcada essencialmente pela intervenção gestual, quase aleatória, traduz também uma certa dimensão do caos humano, da nossa própria existência.
Estas marcas, riscos e formas pretendem atingir, através do esgotar do comportamento esteticamente calculado, o mesmo grau de crueza da figura por eles submersa.
Instantâneos, 2006
Do ponto de vista fotográfico e uma vez que a fotografia é uma actividade indissociável do discurso sobre memória, este trabalho apresenta-se, nessa mesma discussão, como a memória perdida, a imagem destruída, inacessível.
Em algumas das fotografias é possível ainda ver-se os restos da imagem que retivera; um pouco à semelhança do que acontece com os fragmentos mentais que acumulamos e que lentamente se vão tornando confusos.
De um determinado ponto de vista, estes retalhos de papel que guardamos com partes da nossa vivência, não são mais do que a lembrança de que todos os outros momentos que circundam essa imagem estão perdidos para sempre adensando assim a consciência do tempo. Mas isso é precisamente o que pensamos estar a combater com estes registos.
Estes outros momentos, os que nunca ficaram registados vão a pouco e pouco, na nossa mente, transformando-se numa massa disforme e tornam-se simulacros, distorcidos e em última análise, abstractos como a pintura.
O instante que demoramos a capturar uma imagem assemelha-se ao instante que demoramos a perder uma memória.
João Ferro Martins nasceu em Santarém em 1979, formou-se em Artes Plásticas pela Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha.
O seu trabalho abre discussões sobre significado e significante, propondo um universo de relações mais ou menos obtusas cuja soma se traduz num universo paradoxal. Desde a construção ao uso de objectos quotidianos, o puro formalismo ou um simbolismo exacerbado, cria uma atmosfera desconfortável em que não há respostas nem perguntas.
O trabalho revela-se de forma pura e rigorosa mesmo quando enuncia o caos e a destruição.
Vive e trabalha em Lisboa.
